Recordar Sara Tavares

O país anoiteceu com a notícia da morte de Sara Tavares. Uma partida precoce, triste e saudosa. A artista cabo-verdiana abandona-nos aos 45 anos de idade, trinta deles dedicados a cumprir o seu propósito de ser intérprete e compositora de indeléveis canções espelhados em cinco álbuns. 

Tesouro nacional absoluto, Sara significa tantas coisas para tantas pessoas. É a Whitney Houston portuguesa de "Greatest Love of All" ou "One Moment In Time" que validou o propósito do conceito de talent show em Portugal e que serviu de bússola a tantos outros formatos e aspirantes ao sonho artístico. É a expressão portuguesa máxima da década de 90 no Festival da Canção com "Chamar a Música". A referência da Disney no mesmo período com "Longe do Mundo". A presença radiofónica imbatível graças a canções intemporais como "Solta-se o Beijo" e "Eu Sei". A expressão crioula de "Balancê", "Bom Feeling" ou "Coisas Bunitas". 

É um percurso ímpar, galardoado, capaz de cruzar dialectos, sonoridades e continentes, sempre em busca de traduzir da forma mais fiel a sua riqueza artística. E por isso custa tanto deixá-la partir tão cedo, quando certamente ainda haveria mais combustível para percorrer trilhas e estradas. 

É impossível não nos revermos na dor de Catarina Furtado, que há trinta anos a lançava no mítico Chuva de Estrelas, programa que também catapultava a própria apresentadora para o estrelato, e que hoje anunciava na actual edição do The Voice Portugal a notícia da partida da artista - é como se nos despedíssemos de alguém da família, de parte da nossa identidade enquanto povo. E que agora cabe a nós manter viva a memória. 


Há oito anos, por ocasião de um exercício criativo em plena aula do curso de Jornalismo e Crítica Musical, fomos desafiados a eleger uma figura nacional que mereceria um biopic. Escolhi a própria Sara. E acho que faz todo o sentido partilhar esse texto agora:

Depreendo que seja uma escolha altamente contestável, mas acho que a vida e obra de Sara Tavares teriam já fundamento para ser adaptadas à grande tela.

Primeiro porque é a vencedora inaugural do primeiro talent show emitido na televisão portuguesa (Chuva de Estrelas em 1994) no tempo em que este tipo de formatos ainda fabricavam estrelas à séria - todo o desenrolar da sua trajectória pessoal até chegar ao programa e a consequente vitória daria logo pano para uns 30/40 minutos de fita.

Depois a componente sociológica também não deveria ser deixada ao acaso: que implicações tem a vitória num concurso destes de uma rapariga de 16 anos de cor negra e descendente de cabo-verdianos que de repente se vê catapultada para o estrelato e a braços com as pressões inerentes à entrada na indústria musical? Acho que é um ângulo muito sumarento.

Não poderia faltar também a intensa exposição pós-programa que teve o seu pico com a representação de Portugal no Festival Eurovisão da Canção de 1994 onde terminou num notável 8º lugar - é como que a história da Cinderela aplicada ao panorama musical.

Com a chegada do novo milénio o filme seguiria numa direcção distinta, à medida que Sara Tavares abandonava a persona pop até então cultivada para abraçar as suas raízes africanas, tornando-se na conceituada intérprete de world music que hoje o mundo conhece. O distanciamento do mainstream e a compreensão de que a realização artística chegaria por outra via menos directa e comercial, forneceriam também interessantes ângulos à narrativa.

Creio que é um percurso ímpar e apelativo do ponto de vista cinematográfico. Se seria um sucesso de bilheteira ou um rotundo fracasso, não sei ao certo, mas valia a pena tentar. O título para a película? "Chamar a Música", what else?


Talvez nunca se concretize. Talvez não seja preciso de todo. O respeito, a gratidão e o carinho que nutrimos por ela serão suficientes. É altura de demonstrá-lo, agora e sempre. Serás eterna, querida Sara.


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