Acerca da 'Moonlight Edition' de Future Nostalgia

 


Foi há pouco mais de um ano que fechámos os olhos e mergulhámos no êxtase infinito de Future Nostalgia, bálsamo maior da pandemia que levou a sua autora a patamares galácticos de aclamação crítica e comercial.

Dua Lipa cedo prometeu que haveria uma espécie de lado B do disco e assim ficámos na esperança de que o Teenage Dream dos anos 20 fosse ampliado como o Dedicated de Carly Rae Jepsen, por exemplo, que superou inclusivé o dito lado A. Não foi bem isso que aconteceu.

Não é que não existisse material de sobra para compôr um lado B - os vários demos das sessões de gravação excluídos do alinhamento original de Future Nostalgia circulam pela net - mas Dua Lipa e a sua equipa foram bastante, hum, comedidos, e libertaram antes uma versão expandida com mais 8 temas (apenas quatro deles inéditos e os restantes colaborações angariadas ao longo da era).

Já tínhamos vivido de expectativas insufladas para Club Future Nostalgia, a versão remisturada do álbum por Blessed Madonna lançada em Agosto último, e o mesmo aconteceu agora com a Moonlight Edition, mas ainda que nenhum dos esforços iguale o furor alcançado com a edição original do disco, há que louvar Dua e a Warner por estarem empenhados em imortalizar esta era na história da cultura pop.


"Fever", a colaboração bilíngue com a belga Angèle, dá início à edição revista de Future Nostalgia: um colírio synthpop de influências afrobeat, eurodance e disco pop esquadrinhado pelo mesmo esteta de "Don't Start Now", que em plena pandemia global tem o condão de comparar um deslumbramento do coração a uma febre súbita e intensa. "We're Good", o single de avanço oficial da Moonlight Edition, pausa as influências disco por um momento e deixa a descoberto uma imensa composição pop tropical sobre desvinculações românticas amigáveis, que traz o Verão antecipadamente - é cálido e sedutor na sua entrega vocal, mas não é bom tradutor da palavra apregoada pelo disco-mãe.

"Prisoner", por seu lado, pede emprestado a Plastic Hearts de Miley Cyrus o seu trote disco-punk e glam rock - numa nova roupagem para Miss Lipa - para manifestar a necessidade de libertação de uma relação abusiva e tóxica. "If Ain't Me" é decididamente o mais suculento dos quatro inéditos: disco pop propulsiva sobre recear perder o seu boo para os braços de outra. É certo que perdeu Normani pelo caminho, mas ainda assim daria um cartão de visita mais digno para esta Moonlight Edition"That Kind of Woman", que ouvimos pela primeira vez em molde remisturado na versão Club do projecto, recua até à década de 80 na sua passada disco cintilante de desejo ostensivo, em mais um objecto vocalmente arrebatador. E "Not My Problem" soa a um extravagante devaneio disco-funk noventista em que Lipa e o rapper JID versam sobre o alívio de já não terem que carregar o peso dos seus ex - uma escolha um nadinha arrojada para incluir no alinhamento, quando havia demos pelo YT bem mais consensuais e capazes de encaixar na proposta original de FN.


De seguida escuta-se a versão de "Levitating" eleita para single, com o rap de DaBaby à mistura só para facilitar os algoritmos do Spotify, uma vez que dilui um nadinha o conceito e a diversão da primeira encarnação. E faltava só preencher o filão latino, o que acontece com o sopro quente de "Un Día (One Day)", reggaeton lento com ecos de house e dancehall ladeado pelos pesos pesados J Balvin, Bad Bunny e Tainy, que acabou por se perder um bocadinho injustamente na temporada estival passada também por culpa do calendário preenchido dos seus intérpretes. 

Devemos encarar esta Moonlight Edition mais como uma edição comemorativa do primeiro aniversário do álbum do que uma extensão própria do mesmo: dificilmente veremos serem extraídos mais singles daqui. É possível que Dua ainda dê tratamento de single a "Cool" ou "Pretty Please" no Verão, visto que "Love Again" foi lançado como tal apenas em França, e se atire a mais umas colaborações com ou sem ligação ao universo de FN enquanto, se a pandemia permitir, percorre a digressão europeia de suporte ao álbum no último quadrimestre do ano, antes de colocar um ponto final na icónica era. Ficamos sintonizados à medida que a jornada prossegue.

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