Desavergonhadamente, Elton

 


Assisti por estes dias a Rocketman, o biopic de Sir Elton John. Um filme que há muito já estava na lista dos indispensáveis, assim que por altura do primeiro confinamento deitei as mãos à sua autobiografia. E lembrei-me que prometi a mim mesmo escrever sobre a experiência avassaladora que foi ler sobre este vulto intemporal cuja história conhecia apenas à superfície.

Não sei porque razão levei quase três décadas a debruçar-me sobre o seu legado, mas a leitura das suas memórias naquela fase em específico trouxe-me uma sensação de conforto e pertença quando o mundo se fechava sobre si mesmo e se lançava para o desconhecido de uma situação pandémica. A escrita íntima, eloquente e sarcástica de Sir Elton aliada às memórias de uma vida ímpar, galáctica e também de excessos, foi um porto de abrigo sem igual.

A autobiografia veio estilhaçar por completo a imagem que tinha construído de Elton John. O homem de meia-idade anafado, ligeiramente entediante, um tanto excêntrico e cujo pico artístico ou tinha sido o hino fúnebre à princesa Diana ou a contribuição para a banda-sonora de O Rei Leão. Oh céus, não poderia estar mais enganado. A avaliar pelas suas memórias, uma só noite de deboche sua teve mais arrojo que a minha vida inteira. Aceder a Elton, a estrela rock queer desbragada, foi qualquer coisa de extraordinário.

O biopic de 2019, por seu lado, é exímio na parte musical, mas deixa de fora muitos factos - caso contrário teria quatro horas de duração em vez de duas - que teriam passado ao lado caso não tivesse lido a autobiografia. Por exemplo, o pai austero e distante do cantor parece estar melhor representado do que a mãe intransigente e sempre à beira de um ataque de nervos. Foi da avó materna que recebeu o amor mais puro e saudável. Da infância em Pinner recordo também o ávido melómano por si descrito: da gigantesca colecção de vinis às tardes passadas a observar nos jornais as colunas dos álbuns e singles mais vendidos em Inglaterra, um hábito que, aliás, ainda cultiva até aos dias de hoje. Um músico do caraças que ainda por cima adora música e tudo o que a envolve, como o raio. Tudo certo, claro.

Elton chega a afirmar que toda a sua carreira foi construída a tentar provar qualquer coisa ao seu pai. Que mesmo quando o filho foi a maior estrela do planeta nunca foi capaz de confessar que tinha orgulho em si. Isso é algo que o filme bem documenta, mas deixa escapar outra artéria interessante da relação disfuncional entre os dois. O futebol. A única tentativa de união entre ambos passava por assistir aos jogos do Watford F.C., clube distrital de última divisão pelo qual os dois nutriam um fanatismo sem precedentes. Exacto, Sir Elton cresceu a aprender a amar futebol - e essa será porventura a informação mais chocante da autobiografia - tendo sido inclusivamente presidente do referido clube durante mais de uma década e levado a equipa sob a alçada de Graham Taylor da quarta à primeira divisão. Os relatos são emocionantes e heróicos, acreditem. 

Algo em que o filme é realmente fabuloso é na forma como consegue retratar a alquimia musical entre Elton John e Bernie Taupin, o seu Carlos Tê há mais de cinco décadas. O momento mais importante da vida de Reg Dwight, como é frisado várias vezes ao longo do livro, é aquele em que Ray Williams da Liberty Records lhe entrega o envelope com as letras do então desconhecido Bernie para serem musicadas, algo que acontecia sempre ao piano. Não fosse aquela oportunidade e aquele envelope em particular, poderíamos nunca ter assistido ao nascimento da lenda. Mais do que sidekick imprescindível para a discografia icónica que se seguiria, Bernie Taupin foi sobretudo o irmão mais novo que Elton nunca teve. E se Taron Egerton é imensamente arrebatador na encarnação do autor de "Rocketman" no grande ecrã, não menos notável é Jamie Bell na entrega do gentil e amável Bernie.

O livro balança com precisão entre a narração cronológica da sua obra alinhada com os acontecimentos da sua vida pessoal. O início com os Bluesology no árduo circuito de pubs. A sofrida tentativa de singrar no mercado enquanto compositor para terceiros. A criação de "Your Song", o primeiro êxito, na casa que partilhava ainda com a avó, a mãe e o companheiro desta. A primeira digressão pela América e a sensação de deslumbramento. As origens por detrás de Tumbleweed Connection, Madman Across the Water, Honky Château, o lendário Goodbye Yellow Brick Road ou até o mal-amado Victim of Love. É incrível como numa carreira com mais de 30 títulos, Elton conserve uma espécie de ficha identitária e emocional para cada um deles.

A espiral descendente em que o cantor mergulha na década de 80 é só contada ao de leve na tela. O livro dá-nos muitas passagens de deboche glamouroso, sim, mas também decadente. Festas desbragadas com celebridades. Álcool. Cocaína. Canábis. Sexo a rodos. Vício de compras. Tentativas de suicídio. Tablóides sempre à perna. E sobretudo, dor e solidão. O tóxico e ambicioso manager/companheiro John Reid foi a peça central nessa descida aos infernos, mas mesmo depois deste ter saído da sua vida, Elton ainda levou uns quantos anos a recuperar a estabilidade emocional. Seguiram-se outros tantos relacionamentos falhados (igualmente tóxicos), sendo que apenas o casamento com a engenheira de som Renate Blauel - em mais um acto inexplicável da fabulosa vida de Sir Elton - é retratado por breves instantes no grande ecrã.

O que o filme bem documenta é a dicotomia entre o caos miserável em que a sua vida havia mergulhado e o zénite da sua carreira, a esgotar estádios e a vender discos como ninguém. A tentativa de reabilitação, porém, não é tão linear e imediata quanto o biopic demonstra: não foi motivado pelo esgotamento físico e psicológico, mas pela morte de um amigo próximo para o vírus da sida, no início dos anos 90. A linha cronológica do filme termina algures em 1983, mas quase seria preciso uma sequela para explicar o que aconteceu com o músico da década de 90 em diante.

O fim dos excessos e dependências. A convalescença física e emocional. A autonomia e controlo da sua vida e carreira. O cultivo de uma consciência social e humanitária através da criação da Elton John AIDS Foundation e da advocacia pelos direitos da comunidade LGBTQ. A amizade com a Princesa Diana. O Rei Leão. A entrada de David Furnish na sua vida. A gigantesca bola de neve em que "Candle in the Wind" se tornou. A residência em Las Vegas. O casamento e nascimento dos filhos. O orgulho que deposita na aventura colaborativa com o seu ídolo Leon Russell. Outra experiência de quase morte. A digressão mundial de despedida, que se encontra interrompida por culpa da pandemia. A sua vida incrível parece simplesmente não se esgotar.

Aconselho vivamente a todos que explorem mais a fundo a vida e obra de Sir Elton John, porventura o homem mais extraordinário e inesperado que o rock tornou possível e cuja importância impera continuar a relembrar para as décadas e gerações vindouras. Que possa continuar a viver para todo o sempre e desavergonhadamente, nas nossas mentes, ouvidos e corações.

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