12 Figuras Que Marcam a Pop do Séc. XXI (8º-Amy Winehouse)


Pertence a Amy Winehouse o capítulo mais triste desta antologia, ainda tida por muitos como a melhor vocalista da sua geração e um dos maiores ícones do seu tempo. Viveu depressa e morreu cedo demais, mas a obra que nos deixa, apesar de curta, é à prova de tempo, tendências e costumes - indelével, por assim dizer.

Descoberta pela empresa de management do magnata da pop Simon Fuller, edita em 2003, então apenas com 20 anos, o seu álbum de estreia Frank - em homenagem a Sinatra - num registo jazz muito liberto que vai beber também à bossa nova, R&B ou hip hop, personificado em canções como "In My Bed" ou "Stronger than Me". A recepção comercial é modesta - não vai além de um 13º lugar na tabela de álbuns britânica - mas a crítica tece-lhe desde logo algumas loas e a indústria premeia-a com um prémio Ivor Novello e as nomeações para dois BRIT Awards e o distinto Mercury Prize.

Ao arrojo musical e à voz com profundidade e alcance igual ao das grandes lendas do jazz, alia-se também uma desarmante franqueza lírica de teor autobiográfico, que aumenta exponencialmente com a edição do segundo álbum de estúdio, Back to Black (2006), uma valente crónica de amor e ódio ao homem que lhe destroçou o coração. O disco, produzido por Mark Ronson e Salaam Remi - arquitecto principal de Frank - marca um afastamento do jazz e aproxima-se da soul reminiscente das girl groups dos anos 60 (como as Shangri-Las), numa apropriação que extravasa também para o domínio visual - é nelas que Amy Winehouse se inspira para criar a "colmeia" que adorna o seu cabelo. O álbum é lançado desde logo com aclamação comercial e crítica, mas só se torna num verdadeiro fenómeno de vendas passados alguns meses da sua edição, já no início de 2007: ascende ao nº1 do top britânico e nos Estados Unidos bate o recorde da melhor estreia de uma artista inglesa no top 100 da Billboard.

Não inocentemente, os problemas da autora de "Rehab" começam muito antes, a partir do momento em que se entrega à bebida - problema esse retratado na canção-chave do disco - como forma de superar o desgosto amoroso, lidando também com distúrbios alimentares ou depressões nunca totalmente tratadas. Mas a reconciliação com esse homem do passado (Blake Fielder-Civil), com quem chegaria mesmo a contrair matrimónio, acarreta ainda sarilhos de maior ordem para a cantora, que acrescenta à lista de vícios o consumo de marijuana e a dependência de cocaína e heroína. O sucesso global adensa-se a igual ritmo ao das complicações pessoais de Amy, que passa a ser a vítima predilecta da imprensa tabloide inglesa, com repercussões óbvias nas publicações de todo o mundo. Tudo é documentado em directo e a par e passo - as glórias, as polémicas, os louvores e boatos - num processo de auto-destruição público.

Amy Winehouse era um desastre à espera de acontecer, mas tal não invalida que a sua morte - a 23 de Julho de 2011, numa altura em que o circo mediático já havia sossegado e a ficha clínica parecia menos alarmante - não nos tivesse apanhado de surpresa. O "Clube dos 27" ganhou um novo membro e o Olimpo recebeu antecipadamente uma estrela rock que fazia mais jus ao título que muitas das que ostentam esse crachá ao peito, mas o mundo perdeu uma das vozes mais incontornáveis, sofridas e brutalmente honestas do seu tempo.

A figura desaparece, mas o seu legado permanece vivo: é ela a principal responsável pelo revivalismo soul britânico, facilitando a exportação das congéneres Duffy e Adele para o competitivo mercado norte-americano e abrindo a porta para uma série de conterrâneas suas aspirarem à internacionalização - de La Roux, Estelle, Jessie J, Florence and the Machine, Ellie Goulding, Emeli Sandé a Paloma Faith. Ainda temos muitas saudades dela.


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